Por volta de 450 a.C., Atenas transformou-se no centro cultural do mundo grego. A despeito da rivalidade existente entre Atenas e Esparta e apesar das várias guerras enfrentadas, a Grécia beneficiou-se, durante o período de 446-429, especialmente, da influência do notável estadista Péricles, que empreendeu a reconstrução da cidade e atraiu para ela muitos artistas, filósofos e intelectuais. Heródoto veio a Atenas recitar a sua História; Anaxágoras apresentou a primeira descrição científica do sol e das estrelas; Ésquilo, Sófocles e Eurípides fizeram a glória do drama grego. E foi nessa época que também a filosofia tomou um novo rumo.

Os filósofos naturais eram sobretudo pesquisadores naturais. Eles ocupam, portanto, um lugar muito importante na história da ciência. Depois deles, o centro de interesse em Atenas se deslocou para o homem e para sua posição na sociedade.

Em Atenas desenvolvia-se pouco a pouco uma democracia com assembléias populares e tribunais. Um pressuposto para a democracia era o fato de que as pessoas recebiam educação suficiente para poder participar dos processos democráticos. Em nossos dias, podemos ver o quanto uma jovem democracia precisa de um povo esclarecido. Entre os atenienses era particularmente importante dominar a arte do bem falar, a retórica.

Não demorou para que um grupo de mestres e filósofos intinerantes, vindos das colônias gregas, se concentrasse em Atenas. Eles se autodenominavam sofistas, eram pessoas estudadas, versadas em determinado assunto, e ganhavam a vida em Atenas ensinado os cidadãos.

Os sofistas tinham um importante elemento comum com os filósofos naturais: eles também viam com olhos muito críticos a mitologia tradicional. Ao mesmo tempo, porém, os sofistas simplesmente rejeitavam tudo o que consideravem especulação filosófica desnecessária. Para eles, ainda que hovesse respostas para muitas questões filosóficas, ninguém jamais seria capaz de encontrar erespostas realmente seguras e definitivas para os mistérios da natureza e do universo. Este ponto de vista é conhecido na filosofia como ceticismo.

Mas ainda que não possamos encontrar uma resposta para todos os mistérios da natureza, sabemos que somos pessoas e que precisamos aprender a conviver umas com as outras. Os sofistas resolveram, então, dedicar-se à questão do homem e de seu lugar na sociedade.

"O homem é a medida de todas as coisas", disse o sofista Protágoras (c. 487-420 a.C.). Com isto ele queria dizer que o certo e o errado, o bem e o mal sempre tinham de ser avaliados em relação às necessidades do homem. Quando perguntado se acreditava nos deuses gregos, Protágoras dizia: "Dos deuses nada posso dizer de concreto [...] pois nesse particular são muitas as coisas que ocultam o saber: a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana". Chamamos de agnóstico aquele que não é capaz de afirmar categoricamente se existe ou não um Deus.

Via de regra, os sofistas eram homens que tinham feito longas viajens e, por isso mesmo, tinham conhecido diferentes sistemas de governo. Usos, costumes e leis das cidades-Estados podiam variar enormemente. Sob este pano de fundo, os sofistas iniciaram em Atenas uma discussão sobre o que seria natural e o que seria criado pela sociedade. Com isto, eles criaram na cidade-Estado de Atenas as bases para uma crítica social.

Eles puderam mostrar, por exemplo, que uma expressão como "sentimento natural de pudor" era algo que não se sustentava. Pois se o pudor e a vergonha fossem uma coisa natural, então eles tinham de ser características inatas. Mas será que tais características são inatas ou será que a sociedade as criou? Para pessoas que já viajaram muito, a resposta simplesmente seria a seguinte: o medo de se mostrar despido a outras pessoas não é uma coisa natural ou inata. O fato de se ter ou não vergonha disso está ligado sobretudo aos usos e costumes de uma sociedade.

Podemos imaginar como foram inflamadas as discussões que os sofistas incitaram na sociedade de Atenas quando afirmaram que não havia normas absolutas para o certo e o errado. Ao contrário deles, Sócrates tentou mostrar que algumas normas são realmente absolutas e de validade universal.

Sócrates foi contemporâneo dos sofistas. Como eles, Sócrates também se ocupava das pessoas e da vida das pessoas, e não dos problemas dos filósofos naturais. Alguns séculos mais tarde, um filósofo romano - Cícero - disse que Sócrates havia trazido a filosofia do céu para a terra, transformando cidades e casas em sua morada e levado as pessoas a refletir sobre a vida e os costumes, sobre o bem e o mal.

Mas Sócrates diferia dos sofistas num ponto muito importante. Ele não se considerava um sofista, isto é, uma pessoa instruída, sábia. Ao contrário dos sofistas, ele não cobrava absolutamente nada por seus ensinamentos. Não, Sócrates se autodenominava filósofo, no sentido mais verdadeiro da palavra. Um "filo-sofo" é, na verdade, um "amante da sabedoria", alguém cujo objetivo é chegar à sabedoria.

Os sofistas cobram por suas exposições mirabolantes, e a história registra que tais "sofistas" têm aparecido e desaparecido com bastante freqüência. São nada mais nada menos que professores e sabidões que ou estão satisfeitos com o pouco que sabem, ou então vivem se gabando de que sabem um monte de coisas das quais na verdade não fazem a menor idéia. Um verdadeiro filósofo é alguém completamente diferente; é o extremo oposto.

Um filósofo sabe muito bem que, no fundo, ele sabe muito pouco. Justamente por isto ele vive tentando chegar ao verdadeiro conhecimento. Sócrates foi uma dessas raras pessoas. Ele sabia muito bem que nada sabia sobre a vida e o mundo. E agora é que vem o mais importante: o fato de saber tão pouco não o deixava em paz.

Um filósofo, portanto, é uma pessoa que reconhece que há muita coisa além do que ele pode entender e vive atormentado por isto. Desse ponto de vista, ele é mais inteligente do que todos os que vivem se vangloriando de seus pretensos conhecimentos. "Mais inteligente é aquele que sabe que não sabe". O próprio Sócrates dizia que a única coisa que sabia é que não sabia de nada. Esta confissão é uma coisa rara mesmo entre os filósofos. Além disso, é tão perigoso fazer uma declaração dessa assim publicamente que ela pode lhe custar a vida. Os que questionam são sempre os mais perigosos. Responder não é perigoso. Uma única pergunta pode ser mais explosiva do que mil respostas.