Sócrates (470-399 a.C.) talvez seja a personagem mais enigmática de toda a história da filosofia. Ele não escreveu uma única linha e, não obstante, está entre os que maior influência exerceram sobre o pensamento europeu.

Sócrates nasceu em Atenas, no subúrbio de Alopeke, 469 anos antes de Cristo. Ali passou toda a sua vida. Seu pai era escultor e sua mãe, parteira. O método socrático, como desde antigamente se observou, tinha um pouco das qualidades das profissões de seus pais. O próprio Sócrates costumava comparar a atividade que exercia com a de uma parteira. Não é a parteira quem dá à luz o bebê. Ela só fica perto para ajudar durante o parto. Sócrates achava, portanto, que sua tarefa era ajudar as pessoas a "parir" uma opinião própria, mas acertada, pois o verdadeiro conhecimento tem de vir de dentro e não pode ser obtido "espremendo-se" os outros. Só o conhecimento que vem de dentro é capaz de revelar o verdadeiro discernimento.

Supõe-se que Sócrates tenha iniciado sua atividade pública de educador já em idade madura. Seu magistério tinha caráter popular e educativo. Poderíamos sempre encontrá-lo nas ruas de Atenas, na praça pública, no ginásio, no mercado, em casa de amigos, no atelier do sapateiro Simão. A ninguém desprezava. A todos pretendia ensinar e com todos, aprender. Sócrates dizia que a relva e as árvores do campo não podiam lhe ensinar nada. E ele era capaz de ficar horas parado, totalmente mergulhado em pensamentos.

Dizem que um dia um cidadão de Atenas perguntou ao oráculo de Delfos quem seria o homem mais inteligente de Atenas. O oráculo respondeu: Sócrates. Quando Sócrates ficou sabendo, admirou-se, para dizer o mínimo. Imediatamente foi até a cidade e procurou um homem que ele e outras pessoas consideravam muito inteligente. Mas quando viu que este homem não era capaz de responder claramente às suas perguntas, Sócrates entendeu que o oráculo tinha razão.

Enquanto viveu, Sócrates já era visto como uma pessoa enigmática e logo depois de sua morte foi considerado o fundador das mais diversas correntes filosóficas. E justamente porque era tão enigmático e porque o que dizia podia ser interpretado de diversas formas é que correntes filosóficas tão diferentes puderam reivindicá-lo como precursor de seus princípios.

Porém, acredita-se que o próprio Sócrates não tenha sido discípulo de nenhuma escola filosófica específica. Sua formação era inata, pessoal, superando o conhecimento de outras escolas doutrinárias provavelmente através de profunda meditação.

Sócrates estava sempre ao ar livre. Pela manhã, logo cedo, dirigia-se às ruas e aos ginásios, passava o meio-dia no mercado, e o resto do dia em qualquer lugar onde se encontrasse a maioria das pessoas. Estava quase sempre conversando e qualquer pessoa o poderia ouvir.

Sua figura logo se tornou popular em Atenas. Seu aspecto externo já era em si mesmo motivo de curiosidade: era baixo e gordo, tinha olhos que pareciam saltar das órbitas e o nariz achatado, cabeça calva e estômago proeminente. Mas seu interior era "absolutamente maravilhoso", conforme diziam. E mais: diziam que se poderiam vasculhar o presente e o passado e não se encontraria ninguém comparável a ele.

Afirmando ironicamente que de nada sabia, Sócrates logo de início desarmava seu interlocutor e encorajava-o a expor seus pontos fracos. E justamente porque fingia que não sabia de nada, forçava as pessoas a usar a razão. Sócrates era capaz de de se fingir ignorante, ou de mostrar-se mais tolo do que realmente era. Chamamos isso de ironia socrática. Através de perguntas, introduzia ora um, ora outro conceito, até que a pessoa via-se em tal conflito que já não podia prosseguir. Embaraçada, percebia que não sabia o que julgava saber e que apenas cultivara preconceitos. A partir daí, Sócrates podia guiá-la para o verdadeiro conhecimento, fazendo que extraísse de si mesma a resposta.

Tomava sempre o caminho mais curto, o dos interesses comuns, para chegar ao que o interessava diretamente: o espírito. Conversava, portanto, sobre assuntos aparentemente triviais com toda espécie de pessoas: ferreiros, sapateiros, cortesãs, flautistas, políticos ou sábios. Foi assim que ele conseguiu expor as fraquezas do pensamento dos atenienses. E isto podia acontecer bem no meio da praça do mercado, no meio de toda a gente. Um encontro com Sócrates podia significar expor-se ao ridículo, ao riso do grande público.

Não é de se espantar, portanto, que ele incomodasse e irritasse muitas pessoas, sobretudo os que detinham poder na sociedade. Mas Sócrates vivia pegando no pé das pessoas não apenas porque queria atormentá-las. Havia qualquer coisa dentro dele que não lhe deixava outra saída senão esta. Ele sempre dizia que ouvia uma voz divina dentro de si. Sócrates protestava, por exemplo, contra o fato de as pessoas serem condenadas à morte. Além disso, recusava-se a denunciar seus inimigos políticos. No fim, isto lhe custou a própria vida.

No ano de 399 a.C. ele foi acusado de "corromper a juventudde" e de "não reconhecer a existência dos deuses". Por uma maioria apertada, Sócrates foi considerado culpado por um júri de cinqüenta pessoas.

Ele poderia muito bem ter pedido clemência. E poderia ter salvo sua vida se concordasse em deixar Atenas. Mas se tivesse feito isto, não teria sido Sócrates. O ponto é que ele considerava sua própria consciência - e a verdade - mais importante do que sua vida. Sócrates afirmou o tempo todo que tudo o que fizera fora para o bem do Estado. Não adiantou. Pouco depois, na presença de seua amigos mais íntimos, bebeu um cálice de cicuta.

Conhecemos a vida de Sócrates sobretudo através de Platão, seu discípulo e também um dos maiores filósofs da história. Platão escreveu muitos Diálogos, ou conversas filosóficas, nos quais Sócrates aparece.

Quando Platão dá a palavra a Sócrates, não podemos afirmar com toda certeza que foi Sócrates quem realmente disse tais palavras. Por isso não é fácil separar os ensinamentos de Sócrates dos de Platão. Apesar disso, não é muito importante saber quem Sócrates "realmente" foi. É sobretudo a imagem que Platão pintou dele que inspira o pensamento ocidental há quase dois mil e quatrocentos anos.